Sketch-o-Rama Xalapa!

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O Jorge Alderete [na imagem], ilustrador argentino e lutador de wrestling nas horas livres, andou por terras inóspitas do México a fazer evangelização pela arte, ou melhor, pelo esboço, em workshops para miúdos. Levou esboços de Manuel Monroy, Alejandro Magallanes, Matt Madden, Fábio Zimbres, César Evangelista e meus, claro.

Agora está tudo online, aqui.

Jorge Alderete, argentinian illustrator and wrestling fighter in is spare time, went on roundabout in Mexico doing sketch workshops for kids. With him, took sketches from Manuel Monroy, Alejandro Magallanes, Matt Madden, Fábio Zimbres, César Evangelista and my owns. Check Jorge’s adventure in here

Escrita Fina: Ponto Final

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Nuno Saraiva e Paulo Patrício © 2004-2006

Foram 48 as histórias de bd publicadas durante todo o ano passado na Única do Expresso, agora é o ponto final na Escrita Fina, série feita em parceria com Nuno Saraiva que (espero) algum dia seja recolhida e publicada em livro.

48 stories of 2 pages done, now it’s the end of Escrita Fina, a weekly series published in Única during last year, magazine of the newspaper Expresso. Some day it will be published in a book.

EuroComix: Pontapé de Saída

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Nuno Saraiva e Paulo Patrício © 2004-2006

A convite do Die Wochenzeitung, semanário suíço de referência, eu e o Nuno Saraiva vamos publicar até meados de Julho crónicas sobre o Euro 2004. Os títulos e o temas vão girar sempre à volta da palavra febre, dos estádios, da festa, da bandeira. Enfim, variantes desta febre futebolística nos vai tocando a todos.

Pois, mas como não percebo rigorosamente nada sobre futebol, as crónicas andarão à volta do que vai acontecendo fora das quatro linhas, esta primeira será sobre a febre dos estádios, a próxima, sobre um inglês que chegou ao Euro em passo de corrida e sobre adeptos hiper-heterossexuais. É bem, é bem.

Autores [em 2003]

Durante uma entrevista, e respondendo a uma pergunta de rotina, James Joyce disse que para se ser escritor é preciso aguentar com tudo. Mesmo a fechar este ano passei a acreditar nisso, quando um crítico me disse que só existiam dois, vá lá, no máximo, três autores de banda desenhada em Portugal.
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Dupla Face

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Será publicada em breve pela + BD uma recolha de esboços e apontamentos de desenho feitos por mim em cadernos, agendas, folhas soltas e post-its desde o início de 2003 com o título de Dupla Face.

Escolhi apenas esboços e apontamentos que tinham semelhanças entre si ou eram variações de um primeiro, sendo depois sobrepostos para resultarem num só desenho e montados lado a lado obedecendo a um denominador comum: a pulsação sexual.

Coimbra e Balbec

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As cidades com um património arquitectónico decadente sempre ficaram bem dentro de um quadrado, Coimbra não é uma excepção. Isto a propósito da exposição Coimbra na BD que abriu hoje, dia 17 de Junho, no Museu de Física da Universidade de Coimbra. Comissariada por João Miguel Lameiras, João Ramalho Santos e João Paiva Boléo, a exposição divide-se em dois blocos, a saber: 1. Coimbra na bd nacional e internacional, tendo como objectivo de avaliar a representação da cidade na bd ao longo do tempo 2. Originais do livro O Segredo de Coimbra de Étienne Schréder e espólio do próprio museu colocados lado a lado, tendo esta como objectivo estabelecer relações (e interpretações) entre ambos.

Não fica mal, a propósito desta exposição, citar Gérard Genette: “Paris e Balbec estão ao mesmo nível, mesmo que uma seja real e a outra fictícia, nós somos todos os dias objecto de narrativas, senão mesmo heróis de um romance.”. Além de estar bem articulada uma das ideias centrais da ficção, esta frase também tem a estranha capacidade de fazer qualquer um sentir-se bem. Tudo, sem usar filosofia em segunda mão ou dar lições de optimismo para donas de casa que sofrem de angustia antes da hora do almoço. Aprende Paulo Coelho.

Genette é conhecido pela teorias que formulou sobre o arquitexto e o hipertexto, mas tem ensaios muito interessantes sobre o discurso literário e aspectos, origens e mecanismos da linguagem. Não vende milhões, nem comove multidões, mas é uma boa leitura para os dias mais tristes.

Queremos +

Ficava feliz se houvessem mais editoras assim, pequeninas e cheias de bom gosto, como a +bd do José Rui Fernandes, a quem se associaram outros dois editores, Júlio Moreira e Pedro Cleto. Até agora foram editados “Aqueles Que Te Amam”, “Max e Zoé em O Grande Disparate” e “Alguns Dias Com Um Mentiroso” de Étienne Davodeau, “L123 Seguido de Cevadilha Speed” de Relvas, “Mundo Fantasma” de Daniel Clowes, e este mês saíram As Aventuras de Hergé de Stanislas e Kafka: Desiste! E Outras Histórias de Peter Kuper.

São raras as editoras que têm a capacidade de editar livros com esta qualidade, porque o nosso mercado é ingrato e desconhece a maioria destes autores, e se a isso juntarmos uma produção gráfica cuidada e um bom design de capa, então estamos a falar de profissão de risco. Calculado ou não, só espero é que eles não parem

Fumetto: Chalet com Cerveja

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01.
A exposição de François Chalet [na imagem, à direita, nos anos 80] é das mais fulgurantes em termos de quantidade e variedade de material exposto: impressões a jacto de tinta, fotocópias, páginas de revista, acetatos, animações flash, montagens em papel, cartazes, brochuras, postais, autocolantes e um longo etc. Limitando-se quase exclusivamente a formas simples para construir a figura humana, não é de admirar que a grande força das ilustrações de François Chalet esteja toda concentrada nas expressões faciais e em soluções muito simples que criam a ilusão de movimento. Muitos dos trabalhos expostos resultam da combinação entre o design e a ilustração, mas tanto num caso como no outro tudo é limpo, inteligente e cheio de graça.

02.
Não entendo como é que um suíço, ainda que a viver em Paris, consegue ser tão sardónico e descontraído ao mesmo tempo.

03.
Club ABC Mixx, 2 da manhã. O François Chalet é o VJ de serviço, mas o DJ residente parece não querer acertar o ritmo da música com o das imagens. O DJ muda, agora é uma DJ, a música melhora e eu tento evitar apanhar com os pés de um suíço gigantesco que desata aos pulos de histeria mal houve Chemical Brothers. Alguém diz qualquer coisa ao microfone, peço tradução a uma alemã que está ao meu lado, ela diz-me que “… há uma carteira junto à pista de dança, estão a pedir ao dono que a vá buscar!”. Meu Deus, penso: será que aqui até os donos e empregados das discotecas são honestos?!

04.
São quase 4 da manhã, acabou a música e a discoteca vai fechar. Meu Deus, penso: será que aqui até os donos e empregados das discotecas se deitam cedo?!

05.
Estamos a horas do fecho do Fumetto, não há quase ninguém à nossa volta. Eu e o François aproveitamos para beber uma cerveja, falamos em francês sobre a maneira como os suíços se vestem e sobre o festival. Mais uma cerveja, eu continuo a falar francês, mas o François muda para inglês, falamos de fotografia e Paris. Outra cerveja, eu mudo para inglês, o François fica indeciso, mas acaba por optar pelo espanhol. Mais outra cerveja, falamos os dois em espanhol sobre Argentina e mulheres. Outra logo de seguida, ele fala alemão e eu misturo francês com espanhol, a conversa é sobre desenho assistido por computador e linhas curvas. Levantamo-nos e vamos buscar mais duas cervejas, as últimas, mesmo para acabar. Estamos ansiosos para desmontar as nossas exposições, boa desculpa para irmos buscar outras duas cervejas. Depois, depois só dizemos palavrões. Sem parar.

Fumetto: Mila com Ilegalidade

milailegal

01.
Acabei de passar por um café onde dois marroquinos tentavam roubar uma carteira que estava no casaco do tipo sentado na mesa ao lado. Olhei para eles, eles olharam para mim e desistiram. Avancei uns metros e fiz sinal a mulher do dono do casaco, ela não percebeu, mas os marroquinos viram que eu estava a fazer sinais, eu fiquei nervoso, eles também, eu comecei outra vez a andar, eles saíram do café, eu virei a esquina a correr, eles a esquina oposta, eu entrei a correr no hotel, eles desapareceram.

02.
Diálogo solto entre autores portugueses numa discoteca suíça:
– Oh, a Milla foi-se embora!
– Vês, é assim que os brasileiro arranjam refrões para letras de músicas…

03.
Quinze minutos a andar pelo meio dos subúrbios de Luzern, vamos até um bar ilegal e estamos orgulhosos disso. Mal entramos, alguém vai ao balcão e pede uma cerveja, resposta imediata, “Não temos cerveja…, nova tentativa, E vodka laranja?!, resposta azeda, Não temos gelo…“.

04.
Ficamos aborrecidos por não poder beber, mas apesar da falta de gelo e cerveja, sempre cometemos uma ilegalidade na Suíça, o que não é nada mau.

Fumetto: Gary Panter com Debbie Reynolds

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01.
É o pior de Jack Kirby e o melhor de Jean Dubuffet numa mesma pessoa. Daí que consiga perceber que fique a impressão de irregularidade para aqueles que não conhecem bem o percurso de Gary Panter desde meados dos anos 70 ou que só tenham conhecimento de alguns dos aspectos mais recentes de uma produção que é múltipla e descoordenada por definição. Uma característica que foi anulada na exposição que o Fumetto lhe dedica, através duma selecção demasiado coerente e toda em volta da série Jimbo. Eu não gostava que fosse assim, porque o Gary Panter tem coisas muito mais interessantes fora da banda desenhada.

02.
Quase todos me perguntam o que achei da exposição do Gary Panter, respondo-lhes que assim-assim, eles argumentam que o homem é punk, e eu limito-me a considerar ninguém é punk acima dos 50, muito menos quando têm barriga e usam uma mosca grisalha no queixo, como é o caso.

03.
Quando alguém pede um desenho ao Gary Panter, este faz questão de gritar, “Queres que te desenhe uma cobra muita maluca?!”, ou “Queres que eu te faça um caubói muito doido… queres?!”, ou ainda “Vou-te desenhar um cão muita maluco!” Os desenhos dele são tão riscados e tremidos que às tantas estes “muita maluca” ou “muito doido” parecem ser um pedido de desculpas, se são não convencem, porque há um miúdo que recusa um extraterrestre “muita doido” pela terceira vez. O Gary tenta chamar a mãe dele à razão, “Se ele não gosta de extraterrestres, eu posso fazer… um rapper muita doido!!!”, a mãe do miúdo diz qualquer coisa em alemão, o tom é ríspido, o miúdo contrariado pega nos extraterrestres, agradece e afasta-se puxado pela mãe, o Gary atrapalhado ainda tenta dar a volta por cima, “E lutadores mexicanos?!? Ele não gosta de lutadores mexicanos?!? É que eu posso fazer lutador mexicano muita maluco!“.

04.
O Gary quer saber como é que eu sou capaz de fazer coisas tão rápidas a pincel, e eu pergunto-lhe como é que ele não parte o aparo sempre que faz uma coisa “muito doida”, ele ri-se e aponta para uma caixa cheia de aparos prontos a usar em caso de acidente. Junto à caixa dos aparos há um lápis ilustrado a toda a volta com caras, digo-lhe que tenho dois iguais aquele em casa, comprei-os em 90 ou 92, mas estão novos, porque gosto tanto deles que não tenho coragem para os usar. Fica muito admirado e diz-me que foi ele quem fez a ilustração para os lápis. Mais: explica-me que foi um amigo em Nova Iorque que lhe arranjou o trabalho. Confesso-lhe que comprei os meus no Feira Nova de Braga, pergunta-me se o Feira Nova é uma papelaria, como não quero ferir de morte o orgulho do homem, respondo que sim meio envergonhado. Ele insiste, “Mas porque é que não os usas?!”, e eu repito, “Epá, Gary, porque são tão porreiros que não tenho coragem de os estragar!“, ele acaba por oferecer-me o lápis que tem, “Toma, podes usar este, porque já tá assim…” eu agradeço, ele ri-se, pega no aparo e assina na ponta do lápis. Fico a pensar se coloco o lápis ao lado do boneco que dança bhangra, e que é uma réplica em miniatura do próprio Balwinder Safri!, ou se ao lado da caixa da MGM com os melhores momentos da “Serenata à Chuva” em 8 mm, onde também tenho guardado um guardanapo de papel usado pela Debbie Reynolds.

05.
Vim até meio do caminho para o hotel a olhar para o lápis que o Gary Panter me deu e a pensar que era uma pena o guardanapo da Debbie Reynolds não estar assinado, o que é compreensível, porque eu aproveitei o facto de ela estar de costas para o roubar. Entre os prédios da rua, fui olhando para as montanhas cobertas de neve, depois para as flores dos canteiros e acabei por parar em frente a uma casa fabulosa, acreditei que estava num musical e que daqui a nada a Debbie Reynolds abria a porta, saltava para o passeio e desatava a cantar,

Summer, winter, autumn, and spring
Were there more than 24 hours a day
They’d be spent in sweet content dreamin’ away
Skies are grey! Skies are blue!
Morning, noon, and night-time, too
All I do the whole day through is dream of you!

Cheguei a saltitar de felicidade ao hotel.